TEA - Transtorno do Espectro Autista: saúde, acessibilidade e cidadania
- Dawra Agência

- 9 de jan.
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Apesar dos desafios, pessoas com TEA têm conquistado cidadania por meio de políticas públicas e acesso a um atendimento especializado nos equipamentos municipais de saúde por meio do SUS

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por padrões persistentes de dificuldades na comunicação e na interação social, além de comportamentos restritivos e repetitivos, com manifestações que variam amplamente em intensidade e forma, daí a noção de “espectro”. Atualmente, o TEA é compreendido como uma diversidade neurológica que requer abordagens individualizadas, respeitosas e centradas nos direitos da pessoa, bem distante de um imaginário erroneamente associado à "doença", descapacitação e/ou invalidez.
A ideia de “espectro” TEA reflete a enorme diversidade de manifestações, intensidades e combinações de características que podem estar presentes em cada indivíduo. Diferentemente de categorias diagnósticas rígidas, o espectro reconhece que o autismo não é uma condição binária (presente/ausente), mas um contínuo no qual as pessoas exibem diferentes graus de dificuldades na comunicação social, sensibilidade sensorial, necessidade de rotinas e padrões de comportamento repetitivos.
Uma pessoa com TEA pode ter fala fluente, alta capacidade intelectual e desafios sutis na interpretação de nuances sociais, enquanto outra pode demandar necessidades significativas de apoio diário. Essa variabilidade é influenciada por fatores genéticos, ambientais e contextuais, e também pode ocorrer interação com outras condições, como ansiedade, TDAH ou dislexia. A abordagem por espectro, portanto, busca respeitar essa heterogeneidade, evitando estereótipos e promovendo intervenções personalizadas que considerem as particularidades, potencialidades e demandas de cada pessoa.
A ciência contemporânea reconhece a importância de intervenções multidisciplinares, apoio psicossocial e políticas públicas inclusivas para garantir qualidade de vida, autonomia e participação plena das pessoas no espectro autista em todas as fases da vida. Embora o diagnóstico ainda ocorra predominantemente na infância, estudos recentes têm revelado a presença significativa de indivíduos diagnosticados tardiamente, inclusive na terceira idade, muitos dos quais viveram décadas sem compreender as razões de suas dificuldades sociais e sensoriais.
PRIMEIROS SINAIS
O TEA costuma se manifestar nos primeiros anos de vida, muitas vezes antes dos 3 anos de idade. Os sinais iniciais podem variar, mas frequentemente incluem ausência ou escassez de contato visual, falta de resposta ao próprio nome, atraso no desenvolvimento da fala ou uso atípico da linguagem (como repetição mecânica de frases, a ecolalia), dificuldade em compartilhar interesses com outras pessoas (por exemplo, não apontar para algo que chama atenção) e pouca ou nenhuma imitação de gestos ou expressões sociais. Comportamentos como apego excessivo a rotinas, resistência a mudanças, movimentos autônomos (balançar o corpo, girar objetos) e sensibilidade sensorial incomum (aversão a sons, texturas ou luzes) também são comuns.
Muitos pais relatam uma percepção inicial de que algo não segue o curso típico do desenvolvimento infantil, mesmo antes de conseguirem nomear exatamente o que é. Essas observações devem ser levadas a sério. O primeiro passo recomendado é observar consistentemente os comportamentos da criança em diferentes contextos (em casa, na escola, em ambientes sociais) e refletir a partir do desenvolvimento esperado para a idade, porém sem fazer comparações com outras crianças. É importante entender que cada criança apresenta peculiaridades durante o desenvolvimento de suas habilidades, e nesse sentido, conversar com educadores, psicopedagogos e pediatras pode ajudar a entender e refinar essas percepções.
O caminho diagnóstico geralmente começa com o pediatra, que realiza triagens de desenvolvimento durante as consultas de rotina. Caso haja suspeita de TEA, a criança é encaminhada a uma equipe multidisciplinar, composta por neuropediatra, psicólogo clínico (com experiência em desenvolvimento infantil), fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. Esses profissionais utilizam instrumentos padronizados, como a ADOS-2 (Observação Diagnóstica do Espectro do Autismo) e a ADI-R (Entrevista Diagnóstica do Autismo – Revisada), combinados à observação clínica direta e ao relato dos pais, para formular um diagnóstico preciso.
O diagnóstico precoce é reconhecido como um fator crítico para melhores resultados ao longo da vida. Intervenções iniciadas cedo, especialmente antes dos 3 ou 4 anos, podem melhorar significativamente habilidades comunicativas, sociais e cognitivas, além de reduzir comportamentos desafiadores. No entanto, é essencial equilibrar a urgência com o rigor, já que nem toda diferença no desenvolvimento indica autismo, e rótulos precipitados podem gerar ansiedade desnecessária ou até desviar o foco de outras condições. Por isso, o processo diagnóstico deve ser cuidadoso, ético e centrado na criança, respeitando seu ritmo e singularidade.
Com o diagnóstico confirmado, os pais devem buscar orientação sobre os tipos de apoio disponíveis, como terapias especializadas (como Análise do Comportamento Aplicada – ABA, terapia ocupacional, fonoaudiologia), inclusão escolar com plano individualizado, grupos de apoio familiar e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico. Informar-se com fontes confiáveis, conectar-se a redes de famílias neurodiversas e adotar uma postura de aceitação, em vez de “cura”, são pilares fundamentais para construir um ambiente acolhedor e potencializador para a criança autista.
TEA NA ADOLESCÊNCIA
A adolescência é um período de intensas transformações físicas, emocionais e sociais, e para jovens no espectro autista, essas mudanças podem ser ainda mais complexas. Embora muitos recebam o diagnóstico na infância, há também aqueles que só são identificados na puberdade, quando as exigências sociais se tornam mais sutis e as diferenças neurocognitivas passam a gerar maiores impactos no convívio escolar, familiar e afetivo. Nessa fase, os desafios incluem dificuldades em interpretar códigos sociais não verbais, lidar com bullying ou exclusão, enfrentar ansiedade social e navegar nas primeiras experiências de amizade íntima, namoro ou sexualidade. Ao mesmo tempo, a adolescência pode ser um momento de grande autoconhecimento em que jovens autistas, assim como outros jovens, podem desenvolver habilidades por áreas específicas, como tecnologia, arte, ciência, música, que se tornam fontes de motivação, talento ou mesmo empreendedorismo.
Romper estereótipos é fundamental. Contrariando visões reducionistas que associam o autismo à incapacidade ou ao isolamento, a realidade de adolescentes e jovens adultos autistas demonstra criatividade, produtividade, trabalho e capacidade de liderança em contextos adequados. Há àqueles que se destacam nos negócios, criando startups, canais digitais, marcas ou prestação de serviços baseados em suas habilidades e áreas do conhecimento. No ambiente escolar e profissional, o apoio de mentores, políticas de acesso e permanência em empresas/instituições e adaptações razoáveis (como flexibilidade de horários ou ambientes sensorialmente amigáveis) fazem toda a diferença e possibilitam a inclusão.
No campo dos relacionamentos, seja com amigos, familiares ou parceiros amorosos, a comunicação direta, honesta e respeitosa é um caminho para a construção de vínculos verdadeiros. Enquanto o jovem autista pode precisar de clareza e previsibilidade, seu entorno aprende a valorizar formas alternativas de expressão afetiva e conexão. A família tem papel central nesse processo, principalmente como aliada no fortalecimento da autonomia. Quando apoiados com empatia, informação e oportunidades reais de participação, adolescentes autistas não apenas superam obstáculos, mas contribuem de maneira original e significativa para a sociedade, desafiando narrativas deficitárias e construindo futuros possíveis, diversos, produtivos e plenos.
IDOSOS
Embora o TEA seja uma condição permanente, frequentemente identificada na infância, seu reconhecimento em adultos mais velhos é possível, embora enfrente desafios como subdiagnóstico e falta de acesso a cuidados adequados. A escassez de pesquisas sobre autismo no envelhecimento contrasta com a crescente visibilidade do transtorno, evidenciando uma lacuna crítica nas políticas públicas voltadas a essa população. Um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base nos dados do Censo Demográfico de 2022, estimou que cerca de 306 mil brasileiros com 60 anos ou mais vivem com Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma prevalência de 0,86% nessa faixa etária, ligeiramente maior entre homens (0,94%) do que entre mulheres (0,81%).
Idosos no espectro autista enfrentam riscos elevados à saúde, incluindo menor expectativa de vida, maior incidência de comorbidades psiquiátricas como depressão e ansiedade, além de doenças cardiovasculares e disfunções metabólicas. Barreiras como dificuldades comunicacionais, sobrecarga sensorial e rigidez comportamental complicam ainda mais o acesso aos serviços de saúde. O diagnóstico tardio é frequentemente obstaculizado pela confusão entre sintomas do TEA e sinais de demência ou outros transtornos mentais, somada à falta de profissionais treinados e capacitados para lidar com essas pessoas. Contudo, quando realizado, o diagnóstico pode trazer alívio e clareza, oferecendo uma explicação para desafios vividos ao longo da vida, promovendo autocompreensão e bem-estar.
ATENDIMENTO PELO SUS
Destaca-se a inclusão do TEA como condição prioritária no Plano Nacional de Saúde (PNS) 2024–2027, que orienta as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o território nacional. Esse reconhecimento institucional implica maior alocação de recursos, metas específicas de acesso e qualificação de serviços, além de reforçar a obrigatoriedade de ações intersetoriais entre saúde, educação e assistência social, algo ainda incipiente nas práticas locais.
Entre as conquistas no âmbito do SUS, destacam-se a incorporação de tecnologias assistivas e estratégias de comunicação alternativa, especialmente a partir da Política Nacional de Tecnologia Assistiva (PNTA), e da ampliação do acesso a dispositivos como pranchas de comunicação visual, softwares de suporte à linguagem e órteses sensoriais. Esses recursos são fundamentais para a autonomia e a participação social de muitas pessoas autistas, sobretudo aquelas com baixa verbalização.
Há também iniciativas como o Programa Telessaúde Brasil Redes e as diretrizes do Ministério da Saúde para a Atenção Integral às Pessoas com TEA, voltadas para a formação em serviço e capacitação contínua de profissionais da saúde com base em perspectivas neurodiversas e anticapacitistas. Essas formações buscam desconstruir abordagens patologizantes e promover práticas centradas nos direitos humanos, na escuta ativa e na participação das próprias pessoas autistas nos processos de cuidado.
BELO HORIZONTE
As conquistas no acesso ao cuidado integral para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Belo Horizonte, e no âmbito do SUS, são fruto da persistência de famílias, da organização de coletivos autistas e da pressão contínua de movimentos sociais que há anos exigem direitos, visibilidade e respeito à neurodiversidade. Essa mobilização transformou um sistema antes fragmentado e excessivamente centrado na lógica clínica em uma rede que, ainda com lacunas, começa a reconhecer a pessoa autista como sujeito pleno, com necessidades que ultrapassam o diagnóstico e abrangem saúde, cultura, educação e cidadania.
Em abril de 2025, a prefeitura lançou uma cartilha clara e acessível que mapeia todos os serviços para pessoas com TEA ao longo da vida, da infância à velhice. Ela reconhece que o TEA é uma condição permanente, cujas necessidades mudam com o tempo. A cartilha foi elaborada com a participação de usuários, famílias e profissionais, evitando linguagem técnica e burocrática.
Baixe aqui a cartilha orientadora: Equipes e Serviços Envolvidos no Cuidado às Pessoas com Transtorno do Espectro Autista na rede SUS-BH - 2025
Segundo a cartilha, estrutura do SUS-BH conta com equipes de Saúde da Família (eSF) que são capacitadas para identificar precocemente sinais de TEA durante consultas de rotina, especialmente na puericultura, ou seja, na promoção da saúde e do desenvolvimento integral da criança desde os seus primeiros dias de vida. Essas equipes são compostas por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde, que atuam em parceria com profissionais de apoio, como pediatras, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, por meio dos Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASF-AB). O NASF-AB desempenha um papel de orientação às famílias, no rastreio de casos, na estimulação neuropsicomotora e na articulação com outros serviços, como escolas e centros de reabilitação.
Quando necessário, o encaminhamento pode ser feito para os Centros de Referência em Reabilitação (CREAB), estruturados em cinco unidades regionais (Barreiro, Centro Sul, Leste, Noroeste e Venda Nova) que atendem toda a cidade. Os CREAB oferecem reabilitação física, intelectual, auditiva e visual, além de serviços especializados como a reabilitação neurofuncional infantil e programas de intervenção precoce para crianças de 0 a 3 anos. Importante destacar também a atuação do Ambulatório Viva Bebê, que acompanha recém-nascidos com risco de desenvolvimento (como prematuros) e identifica precocemente sinais sugestivos de TEA até os 5 anos de idade.
Além dos serviços clínicos e terapêuticos, a rede municipal incorporou dimensões psicossociais e culturais do cuidado. Programas como “Arte da Saúde: Ateliê de Cidadania” oferecem oficinas artísticas e socioculturais para crianças e adolescentes com TEA, fortalecendo autoestima, autonomia e pertencimento. Os Centros de Convivência, por sua vez, atendem adultos com TEA que apresentem sofrimento psíquico ou uso problemático de substâncias, promovendo inclusão social por meio de atividades coletivas, oficinas e rodas de conversa. A atenção psicossocial é ainda reforçada pelos CERSAMi (para crianças e adolescentes) e CERSAM (para adultos), que acolhem crises e oferecem leitos de retaguarda, se necessário.
Desde 2023, pessoas com TEA que apresentam comprometimento funcional de mobilidade têm direito à credencial de estacionamento em vagas reservadas, atualmente são cerca de 1.121 vagas espalhadas pela cidade. Esse direito, assegurado pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI – Lei nº 13.146/2015) e regulamentado pelo Contran, é concedido após avaliação da Secretaria Municipal de Saúde e emitido pela BHTrans. A credencial é pessoal, intransferível e válida em todo o território nacional.
Além disso, recentemente a cidade passou a contar com o Parque Girassol, inaugurado em dezembro de 2025 no Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Trata-se do primeiro playground público multissensorial de BH, desenvolvido com a participação de terapeutas ocupacionais, arquitetos e famílias de pessoas autistas. O espaço, gratuito e aberto à população, foi projetado para evitar superestimulação sensorial e oferece brinquedos inclusivos, pisos sensoriais, áreas de acolhimento e estímulos controlados, permitindo que crianças neurodiversas e neurotípicas brinquem juntas em um ambiente seguro e acolhedor.
A conquista desses serviços pela população não se dá apenas por uma escolha administrativa, mas pela afirmação do autismo como parte legítima da diversidade humana e o reconhecimento de que inclusão exige muito mais do que acessibilidade física; exige respeito, escuta e participação popular. Esses passos refletem, na prática, os princípios da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA e demonstram como a articulação entre saúde, educação, transporte e cultura pode, de fato, construir uma cidade e um país que não apenas acolhem, mas celebram as diferentes formas de existir.
REFERÊNCIAS
BAND. Cerca de 300 mil idosos brasileiros têm algum grau de TEA, diz estudo. São Paulo, 4 jan. 2026. Da redação, com Agência Brasil. Disponível em: https://www.band.com.br/noticias/cerca-de-300-mil-idosos-brasileiros-tem-algum-grau-de-tea-diz-estudo-202601041142. Acesso em: 8 jan. 2026.
BELO HORIZONTE. Secretaria Municipal de Saúde. Cartilha orientadora: equipes e serviços envolvidos no cuidado às pessoas com transtorno do espectro autista na rede SUS-BH. Belo Horizonte, abr. 2025. Disponível em: https://prefeitura.pbh.gov.br/saude/transtorno-do-espectro-autista. Acesso em: 30 dez. 2025.
BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Pessoas com transtorno do espectro autista têm estacionamento reservado. 13 abr. 2023. Disponível em: https://prefeitura.pbh.gov.br/noticias/pessoas-com-transtorno-do-espectro-autista-tem-estacionamento-reservado. Acesso em: 30 dez. 2025.
HAPUQUE, Quéren. Parque Girassol em BH: conheça o novo espaço gratuito para crianças. Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 18 dez. 2025. Disponível em: https://www.em.com.br/gerais/2025/12/7316535-parque-girassol-em-bh-conheca-o-novo-espaco-gratuito-para-criancas.html. Acesso em: 30 dez. 2025.
Esta reportagem foi produzida com o auxílio de I.A. e em diálogo com as referências bibliográficas indicadas.



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