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Eleições 2026: Política LGBTQIAPN+ sob ataque na corrida eleitoral

As eleições presidenciais no Brasil têm sido marcadas por intensos ataques à população LGBTQIAPN+ e suas lutas políticas



Nos últimos anos, a diversidade, particularmente a população LGBTQIAPN+, tem estado sob ataque sistemático no Brasil, e esse assédio não se limita ao plano simbólico ou discursivo, mas tornou-se um eixo central das disputas políticas e eleitorais. Setores conservadores, notadamente desde 2018, passaram a instrumentalizar a LGBTQIAPN+fobia como ferramenta de mobilização ideológica, construindo um “inimigo interno” a partir da diversidade de gênero e sexualidade. A LGBTQIAPN+fobia transformou-se em um ativo eleitoral, mobilizador de identidade política, um marcador ideológico que define lealdades, orienta votos e justifica ações de Estado. Nesse contexto, a cidadania plena de corpos dissidentes é sistematicamente posta em xeque, não por acaso, mas por um projeto excludente de poder.


A perseguição sofrida pelo então deputado federal Jean Wyllys (PSOL) já antecipava esse cenário de caça à política LGBTQIAPN+. No contexto do impeachment de Dilma Rousseff (2016), Wyllys, um dos poucos parlamentares abertamente gays e defensor intransigente dos direitos humanos e das minorias representativas, tornou-se alvo de uma campanha orquestrada de ódio, difamação e ameaças, apoiada nas redes sociais e respaldada por figuras políticas de extrema direita. O parlamentar esteve sob constante ameaças de morte, sem que o Estado lhe garantisse proteção eficaz, à exemplo do que ocorreu com a vereadora Marielle Franco, parlamentar LGBTQIAPN+ assassinada em razão de sua atuação política. A morte de Marielle (2018) e a saída de Wyllys do país (2019) tornaram nítido um sintoma da normalização da violência política no Brasil contra corpos dissidentes, um sinal de que o campo democrático, sob certas condições, deixa de ser seguro para quem ousa ser e pensar diferente.


A estratégia antigênero e anti-LGBTQIAPN+, que têm pautado o debate na política brasileira especialmente no período eleitoral, articula três dimensões interligadas e que são importantes para a sua eficácia: o discurso, a institucionalidade e a infraestrutura digital. No plano discursivo, constrói-se uma narrativa de ameaça existencial, em que a “ideologia de gênero” (categoria sem base científica, mas com forte carga emocional) é apresentada como uma conspiração elitista, frequentemente associada ao “comunismo cultural”, ao “ataque à infância” e à “destruição da família”. Termos como “doutrinação”, “atentado à infância e à família” e “subversão dos costumes” passam a circular como senso comum, mesmo sem referentes factuais. O episódio do chamado “kit gay”, na verdade um material didático voltado ao combate da homofobia nas escolas, jamais distribuído; é emblemático porque serviu como catalisador de ódio e como plataforma de lançamento para lideranças conservadoras e religiosas, culminando em sua reativação estratégica nas eleições de 2018.



Imagem: Rede Globo
Imagem: Rede Globo

Foi justamente a partir de 2018 que a ofensiva transbordou das redes sociais e das igrejas, chegando na administração do Estado. A eleição de Jair Bolsonaro (PL) representou a consolidação de uma aliança entre o neopentecostalismo político, o liberalismo econômico e o nacionalismo cultural, com a diversidade como um de seus principais campos de batalha. Paralelamente, na Câmara dos Deputados, tomaram posse as deputadas federais Duda Salabert (PDT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), as primeiras mulheres trans e travestis eleitas para essa Casa na história deste país, que trouxeram para o centro do debate o cenário de exclusão da população LGBTQIAPN+ nos espaços políticos e institucionais, principalmente de pessoas trans e travestis.


Durante a gestão de Bolsonaro (2019-2022), a criação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, sob o comando da pastora Damares Alves, simbolizou a captura do aparato estatal por uma agenda teocrática. Em nome de uma “proteção familiar” que exclui todas as formas não heteronormativas de existência, o ministério promoveu um verdadeiro desmonte de políticas públicas: extinguiu a Secretaria Nacional dos Direitos da População LGBTQIAPN+; deixou de registrar dados sobre violência motivada por orientação sexual ou identidade de gênero, apagando estatisticamente a própria existência das vítimas; promoveu campanhas oficiais que só reconheciam a família nuclear heterossexual cristã; e se calou diante de práticas como as “terapias de conversão”, mesmo após sua criminalização pelo STF. Mais do que omissão, tratava-se de uma política ativa de exclusão de corpos dissidentes.


Ao mesmo tempo, a infraestrutura das mídias digitais ampliou e acelerou essa ofensiva. Plataformas como WhatsApp, Instagram, YouTube e X (antigo Twitter) tornaram-se verdadeiros ecossistemas de radicalização, onde discursos de ódio circulam com velocidade algorítmica, desvinculados de qualquer responsabilidade factual ou ética. A lógica do engajamento, que privilegia conteúdos emocionais, polarizadores e muitas vezes falsos, favorece justamente as narrativas mais extremas. Assim, memes que reverberam LGBTQIAPN+fobias com conotações humorísticas, vídeos que distorcem aulas sobre gênero, imagens manipuladas de eventos LGBTQIAPN+, e teorias conspiratórias sobre “sexualização infantil” viralizam, gerando pânico moral em comunidades e pressões locais contra escolas, bibliotecas e gestores públicos. Essa guerra cultural e digital, além de influenciar opiniões, organiza ações concretas, uma vez que pais invadem reuniões escolares, vereadores apresentam projetos de lei antigênero, e candidatos constroem suas campanhas em cima do repúdio à “agenda globalista de gênero”.


Imagem: Meme que circulou nas redes sociais durante as eleições de 2022 para atacar o direito de mulheres trans de usarem banheiros segundo a sua identidade de gênero.
Imagem: Meme que circulou nas redes sociais durante as eleições de 2022 para atacar o direito de mulheres trans de usarem banheiros segundo a sua identidade de gênero.

Atualmente, os alvos se multiplicaram. A linguagem não-binária é atacada como “destruição da língua portuguesa”; o nome social é questionado como “imposição ideológica”; o acesso de pessoas trans a banheiros e esportes é transformado em “ameaça às mulheres cis e a integridade das crianças”; e as políticas afirmativas são acusadas de criar “privilégios injustos”. Em todos esses casos, não se debate direitos, mas se constrói uma moralidade punitiva, baseada na ideia de que a não conformidade com a norma heterossexual e cisgênera é, em si, uma transgressão que deve ser contida.


Um exemplo recente de mobilização da agenda antigênero como retórica política e ideológica é o pronunciamento do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) no plenário da Câmara dos Deputados, no dia 08 de março de 2023 (quando se celebra o Dia da Mulher), para atacar a identidade de gênero de mulheres trans e travestis. Usando uma peruca e se intitulando "deputada Nikole", o pronunciamento adota um tom caricatural, estereotipado, com características meméticas e forte potencial de circulação nas mídias digitais. Como pensado, esse acontecimento foi marcado por forte engajamento nas redes sociais e reverberou em jornais, programas de televisão, gerando visibilidade, presença e posicionamento político marcado pelo antagonismo às políticas LGBTQIAPN+. O deputado foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) a pagar R$ 200 mil por dano moral coletivo em razão das dimensões LGBTQIAPN+fóbicas implicadas nesse jogo retórico, simbólico e discursivo.


Imagem: Meme que circulou nas redes sociais reverberando o pronunciamento do deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
Imagem: Meme que circulou nas redes sociais reverberando o pronunciamento do deputado federal Nikolas Ferreira (PL).

Diante desse cenário, é fundamental reconhecer que as eleições 2026 tendem a ser novamente balizadas por ondas de ataques à população LGBTQIAPN+. As mesmas articulações, entre igrejas, parlamentares, milícias digitais etc., continuam em movimento. Já circulam nas redes debates sobre “proteção da infância” que, na prática, visam censurar livros, criminalizar professores e banir conteúdos sobre diversidade. Candidatos ensaiam discursos que retomam os velhos mitos da “ideologia de gênero”, agora atualizados com novas hashtags e novos inimigos. Os memes humorísticos irão aparecer carregados de violências e discursos LGBTQIAPN+fóbicos em suas dimensões simbólicas, conotações políticas e ideológicas.


É importante perceber que essa ofensiva não desapareceu com a derrota da extrema-direita no executivo nacional; ela se reorganizou, buscando novos canais de influência, novas formas de legitimidade e o controle estratégico de outras ferramentas de poder, como o próprio Congresso Nacional, que está abarrotado daqueles que foram eleitos sob a retórica antigênero e anti-LGBTQIAPN+.


Por isso, enfrentar essa ofensiva conservadora e excludente exige muito mais do que indignação, significa entender o modus operandi desses ataques. Significa percebê-los como ataques à própria ideia de democracia, porque uma democracia que nega direitos a minorias deixa de ser democracia. Significa investir em educação midiática crítica, para que cidadãs e cidadãos possam identificar e resistir às manipulações algorítmicas. Além disso, é urgente fortalecer alianças interseccionais, unindo lutas antirracistas, feministas, indígenas, ambientais e LGBTQIAPN+, porque nesse projeto excludente de poder, todas essas lutas estão sob ameaça. Por fim, ocupar os espaços de poder com corpos que historicamente foram excluídos (nas escolas, nas universidades, nos conselhos, nos partidos, nos meios de comunicação) é um contragolpe necessário.


As eleições 2026 serão, portanto, um novo campo de batalha. Nesse campo será disputado não apenas quem governará o país, quais deputados irão compor o parlamento, mas que tipo de país queremos ser, qual projeto de nação queremos construir. Defender a diversidade não é uma pauta setorial, mas uma aposta na humanidade em sua multiplicidade e na democracia em sua plenitude. E essa aposta, mais do que nunca, exige inteligência, sabedoria, coragem, organização coletiva e ações contundentes contra a violência e os discursos LGBTQIAPN+fóbicos na política e no cotidiano das pessoas.



Philippe Abouid



 
 
 

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